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Introdução
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Luiz
Antonio de Assis Brasil nasceu em Porto
Alegre no ano de 1945, onde reside
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Romancista, ensaísta e cronista; Doutor
em Letras (1987).
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Pós-doutorado em Literatura Açoriana
(1992 - Universidade dos Açores)
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Visiting scholar na Brown University,
Providence (1998)
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Distinguished Brazilian Writer in
Residence. University of California
- Berkeley (2000)
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Conferencista nas universidades de
Tübingen e Leipzig (2006); na
universidade Sorbonne (2007)
Atividades Atuais
Professor Titular da Faculdade de Letras da
Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul.
Ministrante da Oficina de Criação Literária do Programa de
Pós-Graduação em Letras da Faculdade de
Letras da PUCRS, desde 1985. (38 antologias
publicadas).
Membro do Conselho Editorial da EDIPUCRS, da Revista
Signo, da Universidade de Santa Cruz do
Sul.
Membro da Associação Internacional de Lusitanistas.
Membro Fundador da Associação Cultural
Acervo Literário de Erico Verissimo
Currículo Lattes
Clique em
http://lattes.cnpq.br/0812059400565883
Prêmios Literários Mais Relevantes
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Prêmio Ilha
de Laytano
1977, por Um quarto de légua em
quadro |
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Prêmio Literário Nacional
do
Instituto Nacional do Livro
1988, por Cães da Província |
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Prêmio Literário Erico Verissimo
1988, pelo conjunto de sua obra,
concedido por unanimidade da Câmara
de Vereadores de Porto Alegre |
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Prêmios Açorianos de Literatura
1994/1995, o melhor romance e melhor
obra do ano,
com Pedra da Memória e Senhores do século |
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Prêmio Pégaso de Literatura
Latino-americana
1994, Bogotá, Colômbia: Menção especial
do júri,
por Pedra da memória |
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Prêmio Machado de Assis
2001, Biblioteca Nacional, por O
pintor de retratos |
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Livro do ano,
pela Associação Gaúcha de Escritores, 2004
(romance)
para A margem imóvel do rio |
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Prêmio Jabuti 2004
2° classificado com A margem imóvel
do rio |
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Prêmio Portugal Telecom 2004
Único romance classificado entre os três
vencedores:
A margem imóvel do rio |
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Fato Literário 2005,
Rede Brasil Sul de Comunicações/BANRISUL,
pelos 20 anos da Oficina de Criação
Literária |
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Prêmio Jabuti, 2007
Finalista, com Música perdida |
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Prêmio Copa de Literatura Brasileira
2007
Vencedor, com Música perdida |
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Pequeno resumo
Nascido em Porto Alegre, em 1945, Luiz
Antonio de Assis Brasil passou parte da
infância em Estrela, com a família, que de
lá retornou à capital em 1957. Cinco anos
mais tarde começa a estudar violoncelo.
Em 1963 termina o curso clássico no colégio
Anchieta, em Porto Alegre, dos padres
jesuítas. Em 1964 ocorre sua entrada no
exército, para o serviço militar
obrigatório. Um ano mais tarde Luiz Antonio
ingressa no curso de Direito da PUCRS e
também passa a fazer parte da OSPA -
Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – como
violoncelista, lá permanecendo por 15 anos.
Forma-se em Direito em 1970. Advoga por dois
anos. Em 1975 ingressa como Professor na
Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul, função na qual atua até hoje;
no mesmo ano inicia a colaborar na imprensa
com artigos históricos e literários.
Estréia em 1976 com Um quarto de légua em
quadro, lançando o romance na 32ª Feira
do Livro de Porto Alegre, e que lhe deu o
Prêmio Ilha de Laytano. Em 1976 inicia sua
trajetória de administrador cultural,
primeiramente na Prefeitura de Porto Alegre
[Chefe da Secção de Atividades Artísticas] e
depois no Estado do Rio Grande do Sul
[Diretor do Instituto Estadual do Livro -
1983]; 1978 é também o ano de lançamento de
A prole do corvo. Em 1981 é lançado
Bacia das almas. No ano seguinte,
Manhã transfigurada. Em 1981 Luiz
Antonio de Assis Brasil assume a direção do
Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre
No inverno 1984/1985 vai à Alemanha, como
bolsista do Goethe-Institut [Rothenburg-ob-der-Tauber,
na Francônia]. Em 1985 lança aquele que,
segundo o autor, é seu livro com maior carga
emocional, As virtudes da casa.
Começa a coordenar a Oficina de Criação
Literária do Programa de Pós-Graduação em
Letras da PUCRS, em atividade até hoje, e
que recebeu o Prêmio Fato Literário, da RBS/Banrisul
ao completar 20 anos de atividades
ininterruptas. Em 1986 sai mais uma obra,
O homem amoroso, uma novela com forte
acento autobiográfico. Cães da província,
em 1987, retoma o ciclo histórico, adotando
Assis Brasil o dramaturgo José Joaquim de
Campos Leão, o Qorpo-Santo, como personagem
e evocando os tenebrosos crimes da Rua do
Arvoredo. O romance deu-lhe o título de
Doutor em Letras ao autor e fez jus ao
Prêmio Literário Nacional, do Instituto
Nacional do Livro.
Em 1988 Assis Brasil recebe da Câmara
Municipal de Porto Alegre o Prêmio Érico
Veríssimo pelo conjunto de sua obra. Videiras
de cristal, que recria a saga dos
Muckers, é lançado em 1990. Nova experiência
é o romance em três volumes Um castelo no
pampa, que se divide em Perversas
famílias [1992 - ganhador do Prêmio
Pégaso de Literatura, da Colômbia], Pedra
da memória [1993] e Os senhores do
século [1994]. Concerto campestre,
Breviário das terras do Brasil e Anais da
Província-boi saem em 1997, ano em que o
romancista é eleito Patrono da 43a Feira do
Livro de Porto Alegre.
Em 1998 é palestrante convidado na Brown
University, em Providence, USA e em 2000
participa do programa Distinguished
Brazilian Writer in Residence, na
Berkeley University, Califórnia.
Em 2001 publica O pintor de retratos,
que recebe o Prêmio Machado de Assis, da
Fundação Biblioteca Nacional.
Em 2003 lança o livro A margem imóvel do
rio, o qual é contemplado com três
prêmios: Prêmio Portugal Telecom de
Literatura Brasileira [o único romance
dentre os três primeiros classificados],
Prêmio Jabuti [menção honrosa] e Prêmio
Açorianos de Literatura.
Ainda em 2003 acontecem três publicações no
Exterior: O pintor de retratos sai em
Portugal pela Editora Ambar, do Porto; O
homem amoroso é publicado pela Editora
l´Harmattan, de Paris [l´Homme Amoureux],
e na Espanha, pela Editora Akal, de Madrid,
lança a tradução de Concerto campestre
[Concierto Campestre]. Também em 2003
publica um livro de ensaios literários pela
Editora Salamandra, de Lisboa: Escritos
açorianos: tópicos acerca da narrativa
açoriana pós-25 de abril. Em 2005 sai na
França, pela editora Les temps des
Cérises, o Breviário das terras do
Brasil [Bréviaire des Terres du
Brésil.]
Em 2006, Assis Brasil participa, com
conferências na Alemanha [Tübingen, Leipzig,
Berlim] de programa oficial do Ministério da
Cultura do Brasil.
Música perdida é lançado em 2006, o qual
vence, em 2007, a Copa de Literatura
Brasileira e indicação ao Jabuti. Em 2008
segue com sua coluna quinzenal no jornal
Zero Hora, de Porto Alegre, no Segundo
Caderno.
Pequeno resumo extraído da
Revista VOX número 01
(edição de novembro de 2000),
autoria de Paulo Bentancur.
Atualizado em junho de 2008
Entrevista com José Pinheiro Torres
José
Pinheiro Torres - Começando pelo
princípio: como foi sua formação?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
Pensando em formação escolar, esta foi de
excelente qualidade. Estudei com os
jesuítas, que possuem um colégio centenário
em Porto Alegre. Os padres da Companhia
estimulavam os estudos clássicos, a
filosofia e a língua portuguesa. Já na
adolescência eu lia Cervantes, Chateaubriand
e Milton no original - e isso não é vantagem
alguma, porque todos os colegas faziam o
mesmo. Creio que esse foi o grande impulso
para a literatura, embora em casa o ambiente
não fosse estranho às letras. Tive a
oportunidade, também, de estudar música:
aprendi violoncelo e fui músico da Orquestra
Sinfônica de Porto Alegre. Todo esse
conjunto de fatores, creio, já preparava o
futuro romancista. Esquecia de dizer: tomei
aulas de aquarela, mas não passei das
garrafas e das maçãs.
JPT - Falando sobre a Orquestra
Sinfônica: como foi a experiência?
Assis Brasil - Foram quinze anos
dedicados à Orquestra da minha cidade; uma
experiência importante, por vários motivos.
Em primeiro lugar, pela consciência de que,
em uma orquestra, o músico é um executante
no sentido próprio do termo. A emoção e a
paixão são do maestro e do compositor. Em
segundo lugar, enquanto experiência social,
esta é riquíssima. Vive-se, na orquestra, um
ambiente bastante neurótico, porque se trata
de um pequeno grupo no qual há muita
competição em torno dos postos. Postos
melhores significam salários maiores, e a
partir desse fato se estabelece uma pesada
hierarquia dentro da orquestra. E eu vivi
esse clima durante a ditadura militar,
quando havia enorme verticalização do poder.
As coisas eram bem mais graves do que se
pensa.
JPT - E isso deu livro?
Assis Brasil - Deu: O homem amoroso,
uma novelinha.
JPT - O senhor então abandonou a
música?
Assis Brasil - Jamais. Posso não
praticar meu instrumento, mas hoje sou mais
músico do que antes: não tenho mais, sobre
mim, a tirania das notas musicais.
JPT - Quais as leituras ou autores
que mais o influenciaram?
Assis Brasil - O primeiro romance que
li por inteiro foi A relíquia, de Eça
de Queirós. Só descansei quando não havia
mais nada para ler desse autor. Depois, foi
a vez de Flaubert, naturalmente com Mme.
Bovary. E depois vieram Machado de Assis
e Erico Verissimo. Em seguida, Balzac,
Stendhal e Zola. Dentre os modernos e
contemporâneos, estão Thomas Mann, Faulkner,
Hemingway, Gide, Julien Green, Cortázar,
Carpentier, García Márquez, Vargas Llosa,
Saramago, Günter Grass, Pascal Quignard.
Antes que essa relação se transforme numa
lista telefônica, resta-me dizer que li e
leio muito, e de modo assistemático,
guiando-me pelo instinto ou pela sugestão de
pessoas a quem respeito. Não me considero
particularmente influenciado por nenhum
destes, mas por todos em geral; se fosse
imprescindível responder à pergunta, diria
que Eça ainda está no cimo desse panteão
particular: com ele aprendi, ou penso ter
aprendido, como se estrutura um romance e
como se desenvolve uma personagem.
JPT - O que pensa da literatura
chamada pós-moderna?
Assis Brasil - Não acho nada, pois se
trata de um momento estético e, como tal
deve ser entendido. Particularmente, minha
sensibilidade não chega a perceber como, em
certo viés da pós-modernide, se construa um
romance sem conflitos, conflitos sem
personagens, personagens sem drama. Mas o
futuro é que poderá estabelecer um juízo
mais razoável.
JPT - Quando começou a escrever
"profissionalmente"?
Assis Brasil - Em 1974 tive uma
doença gravíssima, que implicou e
internamento hospital, cirurgia, risco de
vida, etc. Na convalescença comecei a
escrever aquilo que seria meu primeiro
livro, Um quarto de légua em quadro.
Não tinha idéia do que se tratava. Minha
intenção original era escrever uma obra
histórica sobre o povoamento açoriano no Rio
Grande do Sul. Pois virou romance, e desde
aí não parei mais.
JPT - Por que Açores?
Assis Brasil - Explico: sou descendente de
açorianos por parte de pai e de mãe. Assim,
o que era um interesse genealógico acabou em
interesse pelos Açores, minha segunda
pátria, e onde tenho excelentes e fraternais
amigos. Já dei aulas de Literatura
Brasileira na Universidade dos Açores e lá
fiz uma investigação de pós-doutorado.
JPT - A propósito: e a carreira
acadêmica?
Assis Brasil - Encontrei-me no
trabalho universitário. Tenho, ali, a
possibilidade de conviver, de maneira mais
palpável, com a literatura e seus autores.
Não poderia fazer outra coisa. À parte
disso, minha Universidade me propicia
ministrar a Oficina de Criação Literária,
que teve início em 1985 e que segue até
hoje. Orgulho-me de meus ex-alunos, que por
ali passaram, e que hoje são escritores
reconhecidos pela crítica e pelo público.
JPT - Mas voltando para sua produção:
como é seu método de trabalho?
Assis Brasil - Como sou - bom ou mau
- romancista, sinto necessidade de um
planejamento prévio da obra. Sem
planejamento não poderia escrever.
JPT - Isso não tolhe a imaginação?
Assis Brasil - Não, pois o verdadeiro
momento de criar á quando se tem a idéia.
Depois, é trabalhar a idéia, de modo que se
apresente lógica, pois no romance vige o
princípio de causa e efeito. O que importa,
entretanto, é o resultado final, isto é, se
o livro é bom ou ruim. O modo como o romance
foi escrito é algo que pertence ao domínio
privado do autor.
JPT - O senhor reescreve muitas
vezes?
Assis Brasil - No passado, sim; hoje,
com o uso permanente do computador, posso
refazer à medida em que escrevo; mas a
intervalos imprimo uma versão, para
testemunho e registro.
JPT - Acha importante a técnica?
Assis Brasil - Técnica literária -
eis um sintagma diabolizado em certos meios
cultos: é como se a literatura derivasse
apenas da inspiração (sabe-se lá o que é
isso), ou que a técnica fosse algo menor,
própria dos obreiros manuais, dos
carpinteiros e alfaiates. A verdade é outra:
qualquer arte possui sua técnica. Tinham
razão os arquitetos das catedrais góticas: ars sine scientia nihil est. Entendo
a técnica literária como a soma das
condições necessárias à escrita. É o senso
de medida na frase, sua musicalidade, a
perfeita construção do diálogo, a eficiência
descritiva e narrativa e, em especial, a
idéia de proporção da peça inteira, de modo
que suas partes dialoguem com a necessária
harmonia compositiva. Técnica também é não
atrapalhar-se com as palavras; ao contrário,
é fazer com que trabalhem a nosso favor.
Técnica é entender o axioma: o que se corta,
ganha-se - os leitores, aliviados,
agradecerão essa higiênica providência.
Técnica é saber que não se escreve para
desabafar, mas para construir uma realidade
estética autônoma, a ser fruída pelos
leitores. Dominar a técnica é escrever de
tal maneira que o leitor queira saber o que
virá no capítulo seguinte. É, por isso,
dizer algo novo a cada frase.
JPT - Então a técnica pode ser
aprendida?
Assis Brasil - A técnica literária -
assim com a técnica da pintura, da
arquitetura, da música, etc., - pode ser
conquistada num curso à semelhança dos
laboratórios do texto (no Brasil,
"oficinas"). Os laboratórios são uma
experiência consagrada no mundo inteiro, e
vêm obtendo crescente aceitação desde que
foram criados nos Estado Unidos, a partir da
década de 40 do século passado. Grande
escritores saíram dali, e agora lembro
Raymond Carver. O curioso, nesse sarau
polêmico, é que não se discute a utilidade,
por exemplo, de uma academia de dança.
Pensado na raiz desses preconceitos e
equívocos, percebe-se, subjacente, uma
atitude algo elitista, algo reacionária,
algo romântica, algo ingênua, que leva
alguns autores a acreditarem apenas no
talento, algo problemático, por dividir
as pessoas entre talentosas e
não-talentosas, partição inaceitável num
mundo que se esforça para, sem
discriminações, assimilar e a integrar as
diferenças e as minorias. A propósito, há um
interessante livro de Beth Joselow, chamado,
muito significativamente, de Writing
without the muse. (1995). Evoco, para
ilustrar, a célebre crítica que Machado de
Assis escreveu a O primo Basílio, na
revista O Cruzeiro, em 16 de abril de
1878. Ali, pela primeira vez, foi dita em
português, a expressão "oficina literária".
A certo instante do texto - na verdade, uma
desanda geral no colega português - diz
Machado: "[Eça de Queirós] transpôs ainda
há pouco as portas da oficina literária..."
Por evidente não está a referir-se a esse
fenômeno atual, mas alerta para a existência
de uma técnica e para a necessidade de um
aprendizado dessa técnica. E nem Machado
furtou-se a isso.
JPT - Quais suas relações com a
crítica?
Assis Brasil - Temos de distinguir:
de um lado há a verdadeira crítica, que é
uma peça de reflexão embasada num
referencial estético-teórico, a qual analisa
a obra mediante critérios ponderáveis e
universalmente reconhecíveis; de outro lado,
há a opinião, fruto muitas vezes da
efemeridade do gosto, quando não de
sentimentos derivados do compadrio ou, ao
contrário, do preconceito. Recomendo ao
escritor que leia a ambas; quanto à
primeira, aprenderá bastante sobre a arte
literária, o que poderá ajudá-lo a escrever
melhor; quanto à segunda, acho-a ainda mais
interessante, pois aprenderá, e muito, sobre
a natureza humana - que é, afinal, a
matéria-prima da Literatura.
JPT - Dentre sua obra, há algum
romance de que o senhor goste mais?
Assis Brasil - Isso é o mesmo que
perguntar a um pai de qual filho gosta mais;
mas para não fugir à pergunta: As
virtudes da casa é o romance que
melhores lembranças me traz da época de sua
escrita. Não sei se é o melhor,
literariamente falando, mas é certo pertence
ao inventário das minhas obras
inesquecíveis.
JPT - Passando ao cinema. O senhor
tem várias obras que passaram ao cinema ou
estão em fase de passar. Como o senhor vê
esse fato?
Assis Brasil - Com muita
naturalidade. Se há algum mérito nisso, ele
se restringe à circunstância de eu manter-me
fiel a uma idéia: toda a narrativa deve
possuir episódios, coisas acontecendo. Isso
é cinema. Todo o romance deve despertar no
leitor aquela pergunta sôfrega: "E agora? O
que vai acontecer?". E é isso que se espera
de um filme. Não me considero um purista
quanto à fidelidade do filme ao livro. São
duas modalidades diversas de narrativa. Se o
romance pode ter maior liberdade em explorar
as personagens e suas tramas, abrindo
espaços para a reflexão, já o cinema deve
ficar no "osso da história", pois é preciso
compactar em hora e meia todo um universo
narrativo. Sempre dei ilimitado poder aos
adaptadores ou diretores dos filmes baseados
em meus livros. Tal como no romance, importa
é que seja um bom filme.
JPT - Alguns críticos acham que o
senhor pratica o romance histórico. Concorda
com isso?
Assis Brasil - O romance histórico
tradicional, ao estilo de Scott e Herculano,
não se pratica mais; pelo menos, se pratica
pouco - e de má qualidade. No denominado
"novo romance histórico" - que Linda
Hutcheon chama de "metaficção
historiográfica" -, a história é sempre
pretexto, e é deformada, reinterpretada,
discutida e, até, criada. Imagino ter feito,
e com certa freqüência, essa segunda
modalidade, com recurso à paródia, ao
pastiche e, uma ou duas vezes, ao plágio
burlesco. Penso, contudo, que é um capítulo
encerrado em meu trabalho. Hoje me preocupa,
mais que tudo, a ficção. Mesmo que os plots
estejam situados num tempo pretérito, isso é
apenas uma opção do escritor: o passado me
dá maior liberdade criadora, e as emoções e
paixões me parecem mais autênticas.
JPT - Valesca de Assis, sua esposa,
também é escritora, e premiada, com três
romances publicados. Há interação em
família?
Assis Brasil - No plano afetivo e
emocional, a mais completa interação; no
plano literário costumamos a separar as
coisas. Contudo, jamais publico algo sem que
a Valesca tenha lido previamente. Suas
observações são valiosíssimas e, às vezes,
decisivas. Se consegui algo em minha
trajetória de escritor, devo a esta mulher
brilhante a ao mesmo tempo modesta, que me
dá um sentido à vida e ao que escrevo. Creio
que isso diz tudo.
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